sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Knock Knock the Wood

Todo Portugal foi muito recentemente surpreendido com a informação de que existiam desvios desconhecidos nas contas de uma das suas regiões autónomas – a Madeira.
Num primeiro momento, pela voz do novo governo, todos soubemos da existência de um desvio nas contas públicas nacionais, referentes ao primeiro semestre deste ano, que para ser ultrapassado iria implicar um trabalho colossal, e que um quarto (25%) desse desvio se referia à Região Autónoma da Madeira, num montante superior a 500 milhões de euros.
Num segundo momento, pela voz do nosso Ministro das Finanças fomos informados que esse desvio iria provocar a necessidade de uma auditoria às contas desta região, para que, finalmente, se conhecesse com transparência a verdadeira realidade das finanças regionais madeirenses.
Depois soubemos que o próprio presidente dessa região, o Dr Alberto João Jardim, tinha dirigido uma carta ao governo a solicitar o auxílio da República. Tratava-se de um verdadeiro plano de resgate financeiro a esta região.
Finalmente fomos todos surpreendidos com a informação de que os desvios em causa respeitavam, não só o primeiro semestre deste ano mas, sobretudo, as contas desta região desde o ano 2004 e que os mesmos iriam provocar a correcção dos deficits orçamentais nacionais dos anos 2008, 2009 e de 2010, chegando os montantes das verbas e dos desvios não inscritos nas contas a totalizar mais de 1100 milhões de euros.
Não fosse isto suficientemente grave, acresceram as infelizes declarações do Dr Alberto João Jardim, no passado fim-de-semana, em plena campanha política regional na Madeira, aquando de uma série de inaugurações preparadas ‘para Madeirense ver’. Nessas afirmações confessou que foi propositado e consciente o ter escondido o buraco nas suas contas, justificando mesmo que essa atitude ocorreu por considerar que no continente havia um governo liderado pelo PS que tirava dinheiro à Madeira.
Declarou ainda que fez obra, mesmo muita obra, mas esqueceu-se de dizer quem a vai pagar. E somos todos nós portugueses, da Madeira e do Continente que vamos pagar as inaugurações desse senhor, que estão uma vez mais a servir para as muitas acções da sua campanha eleitoral.
Fazer obra com dinheiro alheio, sem que quem vai pagar essa obra o saiba, só pode ser condenável, e não só politicamente. Num estado de direito democrático esta situação deve ter consequências não só políticas como também judiciais. Deveriam ser aplicadas sanções políticas imediatas a todo o Governo Regional da Madeira, para além das sanções financeiras e judiciais já devidamente previstas na Lei, mas cuja aplicação deverá ser célere.
Se os Madeirenses votarem em grande maioria na reeleição do seu actual governo regional, só me vem à cabeça uma expressão: “Knock Knock the Wood … está aí alguém?
Rui Saraiva
Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - In 23 de Setembro de 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O dia antes de tudo

Alguém um dia me disse que um dos aspectos mais importantes na nossa vida, em termos profissionais, era sabermos manter a nossa integridade, não nos deixarmos enfeitar ou mudar a nossa personalidade pelos cargos que vamos ocupando ao longo da nossa carreira, e que nunca devíamos esquecer a nossa natureza e a nossa origem, nem nunca nos devíamos afastar de quem nos acompanhava antes de tudo começar.
Procuro cumprir este ensinamento, que reconheço como um dos mais sábios conselhos que recebi.
Qualquer desafio, qualquer responsabilidade, qualquer cargo, para o qual tenhamos conquistado a sorte de o poder assumir, vai decerto moldar-nos, ensinar-nos pelas vivências intrínsecas ao desempenho do mesmo. Mas tal não nos deve transformar, ou fazer com que deixemos de ser quem éramos antes de o assumir ou mesmo fazer com que passemos a sentirmo-nos superiores aos demais ‘mortais’ com quem lidamos no quotidiano.
Incomoda-me a altivez na postura, a distância assumida, e mesmo o ar de extrema auto-importância subitamente ganho por alguns dos que antes conhecia e com quem me relacionava com enorme naturalidade e muito ‘à vontade’.
Quem assim age revela falta de estrutura como profissional e principalmente como pessoa.
Há quem explique este caso da seguinte forma: quando alguns sentem que muito alto subiram na escada social ou profissional, passando a olhar de cima para todos os demais, que isso acontece porque passaram também a aceder a uma atmosfera onde o oxigénio rareia na directa proporção da lucidez.
Tudo na vida é efémero, até a própria vida. Como tal devemos encarar cada lugar que ocupamos como um verdadeiro desafio que nos foi apresentado para ser ultrapassado com competência e enorme sentido de responsabilidade, para o qual devemos estar devidamente preparados dando o nosso melhor na procura da obtenção dos melhores resultados. Mas devemos assumir cada desafio como transitório, e que quando terminar regressamos ao nosso lugar anterior.
Se enquanto estivermos empossados dessa responsabilidade nos afastarmos de nós mesmos, nos desligarmos da nossa própria realidade, deixarmos de conhecer quem antes nos era próximo e destratarmos quem nos rodeia temos garantida a nossa própria solidão quando tudo acabar.
Tal como na gíria popular se canta que ‘quanto mais alto se sobe, de mais alto se pode cair’, haja pouca sustentação de cada degrau que se sobe, de repente um passo firme em cima de alguns dos princípios básicos se transforma num valente tropeção.
O único e verdadeiro melhor resultado final possível para quem abraça o desafio de ocupar um cargo de muita elevada responsabilidade será que o dia seguinte, no que ele significa nas relações que se tem com todos os que nos rodeiam, seja igual ao dia antes de tudo começar.
Esse caminho sim, revelará uma realização plena e um futuro ainda mais promissor.

Rui Saraiva
Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - 9 de Setembro de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Democracia Nova


O crescente afastamento dos cidadãos da política e dos políticos é recorrentemente tema de reflexão e os índices de participação dos cidadãos na vida pública têm-se vindo a degradar. Deste facto resultam os cada vez maiores níveis de abstenção registados nas sucessivas eleições, quaisquer que sejam os motes das mesmas, sejam para a escolha de presidentes, sejam para a escolha de governos nacionais, regionais ou autárquicos.

Não podemos insistir em apenas criticar os cidadãos pelo seu afastamento da política, temos também que reflectir na responsabilidade dos políticos para essa realidade. Até porque também assistimos a movimentos de cidadãos, que se têm manifestado a favor de uma mudança profunda na forma como temos sido governados. E esses movimentos de cidadãos, muitas vezes multiplicados num ápice, pela massiva utilização das novas tecnologias e das novas plataformas de comunicação como são as ‘redes sociais’, têm tido muito elevados níveis de adesão e de participação, que intrigam até os mais atentos.

Estaremos perante uma mudança da ‘Democracia’ tal como a conhecemos?

Não podemos negar que é essencial repensar todo o sistema político, e redesenhar toda a arquitectura do ‘edifício democrático’, sob pena da democracia poder ser cada vez mais posta em causa, por aqueles que aguardam na penumbra, aproveitando as normais e simples falhas deste sistema político, para o tentar destruir, propondo o regresso a sistemas autoritários ou ditatoriais.

“… a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos…” afirmou Winston Churchill há mais de 50 anos.

Saber integrar as novas formas de participação cívica, através das novas tecnologias e das ‘redes sociais’, abrindo e modernizando os partidos, melhorando a ligação dos políticos aos cidadãos, tornando mais públicas e transparentes as decisões, com vista à maior responsabilização dos decisores, mas sobretudo de quem neles votou, é apenas o início de um longo caminho que irá contribuir para a grande transformação da democracia, em que no final todos os cidadãos se sentirão mais participantes do destino comum.

Devem ainda encetar-se algumas mudanças nas actuais leis eleitorais, tais como, aprovar desde já uma nova reforma da lei eleitoral autárquica. Lei essa que possa ser já implementada nas próximas eleições autárquicas de 2013, e que imponham que só tenhamos de votar na eleição dos deputados para as Assembleias Municipais, e que do partido mais votado nessa votação saia a designação de um executivo municipal ‘monocolor’.

Ficaria assim equiparada a fórmula de constituição dos executivos municipais ao actual modelo de formação dos governos nacionais. O poder das Assembleias municipais deveria ser muito reforçado, quer no seu papel fiscalizador, quer ainda no seu papel de sustentação do governo municipal, ou de aprovação dos documentos fundamentais, como sejam os orçamentos, e ainda ficaria com o poder de derrube do executivo, por aprovação maioritária de moções de censura.

A tão desejada aprovação de uma revisão da lei eleitoral para a Assembleia da República seria também fundamental. Primeiramente com a redução do número de deputados para um máximo de 180, tal como já é permitido na actual redacção da lei constitucional, seguidamente com a aprovação dos círculos uninominais, complementada por um círculo nacional que reponha a proporcionalidade nacional da votação. Assim, todos saberiam em quem votavam, e em quem voltar a confiar ou quem não querer reeleger, pela avaliação que deles fariam do seu desempenho, não apenas na participação escrupulosa e activa no plenário da AR e nas comissões, mas também pela correcta e contínua ligação que cada deputado consiga estabelecer com os cidadãos eleitores do seu círculo eleitoral.

Rui Saraiva
Gestor


Publicado In Semanário Grande Porto - 26 de Agosto de 2011

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Administração Pública

Num momento em que todos sentimos as dificuldades de estarmos a passar por uma das maiores crises das nossas vidas, precisamos abordar de forma aprofundada alguns assuntos, que apesar de até há bem pouco tempo não serem considerados prioridades, por força das dificuldades subiram rapidamente para o topo delas.
Hoje fala-se e escreve-se muito sobre a dimensão do Estado e sobre o seu papel. Esgrimem-se publicamente argumentos diversos e até contrários acerca das duas dimensões, com uns a defenderem um Estado maior e outros a quererem reduzi-lo por considerarem mais marginal o papel que lhe querem atribuir.
Mas todos confluem num diagnóstico, tal como está o Estado não é sustentável.
Não o querer discutir para que o possamos redesenhar é ser-se irresponsável por se querer esconder um problema que já existe, porque o Estado já não tem recursos financeiros para cumprir as suas tarefas mais básicas.
É necessário então saber-se que Estado se quer e qual a dimensão que deve ter para que possa cumprir essas funções que se lhe pretendem incumbir.  
Devemos dotar dos meios necessários o Estado para que este possa assegurar um Sistema de Ensino Público, permitindo a todos os cidadãos o aceso à igualdade de oportunidades para o seu desenvolvimento integral; para que este possa assegurar um Sistema Nacional de Saúde público, garantindo que os cuidados de saúde são universais e independentes da capacidade financeira dos cidadãos; para que este possa gerir um Sistema de Segurança Social público que garanta uma protecção social aos mais carenciados, aos cidadãos que por motivos inesperados se vejam em situações de desemprego, ou que garanta uma sustentabilidade digna aos cidadãos que pela idade se reformaram após toda uma carreira profissional contributiva para esse mesmo sistema. 
Este Estado não pode continuar assente num edifício administrativo desenhado sob as  premissas do Séc XIX.
Devemos acabar o mais imediatamente possível com os distritos e devemos instituir rapidamente as cinco regiões no continente. É uma decisão que cabe tomar sem quaisquer adiamentos e sem ‘referendos’. Se na Constituição portuguesa existe a ‘obrigação’ de referendar este assunto, então que uma maioria de 2/3 dos deputados na Assembleia da República votem a alteração da Constituição, retirando-lhe essa ‘obrigação constitucional’.
Uma regionalização que absorva as actuais administrações descentralizadas do Estado, garantindo a sua melhor coordenação num âmbito regional, reduzindo os meios humanos e os recursos materiais que lhes estão afectas e sobretudo agilizando decisões, tornando-as mais rápidas e mais correctas. Uma regionalização que torne mais transparente a acção do Estado, por tornar as decisões mais próximas dos cidadãos, e por também permitir que o Estado regional seja alvo de avaliação e escrutínio no fim de cada ciclo de quatro anos.
Avançar para a fusão de algumas autarquias, sejam elas juntas de freguesias sejam elas câmaras municipais, mas apenas no litoral do continente português, também iriam assegurar a simplificação da administração pública.
Entre outras, estas duas medidas permitiriam reduzir bastante o edifício administrativo do Estado permitindo-lhe focar-se no papel essencial que lhe deve caber.

Rui Saraiva
Gestor

Publicado no Semanário Grande Porto - In 12 de Agosto de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Uma Nova Europa

Europa, velho continente que no decorrer da sua longa história, foi palco de mudanças múltiplas e diversas, palco de guerras, umas ‘Santas’, outras ‘Grandes’ e outras ‘Frias’, de conquistas e de reconquistas, com ‘cortinas de ferro’ e ‘muros’ de separação, território de ‘inquisição’ mas também de ‘liberdade’, de ‘descoberta’ e ‘iluminismo’, mas também de ‘sombras’ recusa de ‘novos pensamentos’, continente de ‘temerários descobridores’ e de refundada ‘cultura’, mas também de ‘perseguição’ e tentativa de ‘eliminação da diversidade’.
Esta Europa será capaz, uma vez mais, de se reinventar e de definir o seu caminho. A sua força reside no seu passado e na diversidade que sempre soube integrar. Esta Europa superará os tempos presentes difíceis em que vive e saberá ser novamente uma referência para o resto do mundo.
Esta Europa vive hoje um novo grande desafio, faltando-lhe saber reencontrar-se e perceber o que quer ser no seu futuro. A crise da dívida soberana, a crise do euro, a crise financeira e orçamental dos países europeus só pode ser ultrapassada de forma conjunta, aglutinando todos os países num mesmo percurso.
O caminho que melhor vislumbro ser percorrido contempla a governação económico-financeira conjunta, com a criação de mecanismos que permitam ao Banco Central Europeu a emissão de dívida para todo o espaço dos países do euro, que alguns apelidam de ‘eurobonds’.
Este movimento permitiria num primeiro momento ‘trocar’ a dívida antiga de cada país por uma parte da nova dívida da Europa, ‘dinheiro novo’, com novas maturidades, e novas condições financeiras associadas. Esse ‘dinheiro novo’ seria canalizado para cada um dos países, mas devidamente acompanhado de condições detalhadas e quantificadas e metas temporais que deveriam ser cumpridas por cada um desses países, sob a devida vigilância da nova governação económica e financeira conjunta.
O risco dessa dívida europeia (‘rating’) seria o risco resultante da soma ponderada dos riscos de todos os países do eurogrupo.
Também defendo que deveria ser criada uma agência de rating europeia, mas ao contrário de todas as opiniões que até hoje conheço, defendo que esta agência se deveria apenas ocupar em analisar os riscos dos demais países, que estão fora do próprio espaço.
Depois defendo que deveria haver uma desvalorização substancial do euro, com uma significativa emissão de moeda, tendo em vista à melhoria da competividade económica da Europa face a outros espaços como os Estados Unidos, a China, o Japão, o Brasil ou mesmo a Índia.  
Há ainda quem acredite na Europa…

Rui Saraiva
Gestor

publicado no Semanário Grande Porto - In 29 de Julho de 2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Assino o que penso

Há regras que gosto de quebrar…
Defendem alguns que há uma regra de ouro que devemos respeitar. É a regra de não nos prejudicarmos a nós mesmos. Esta regra está até transcrita num popular ditado português que profetiza que “pela boca morre o peixe”. Essa regra institui que devemos saber falar apenas quando nos for conveniente. Defende que devemos “pensar no que dizemos e não dizer o que pensamos”. Argumentam que, se quem nos estiver a ouvir não gostar do que tivermos para dizer, então que devemos manter-nos em silêncio.
A estes respondo que independentemente das consequências, perante um erro, perante uma injustiça falo, digo o que penso. Acredito que as consequências nunca serão verdadeiramente más quando estamos a defender convictamente valores, ideais e princípios em que profundamente acreditamos.
Outra regra que alguns também defendem, diz que a natureza é sábia, e que devemos saber ouvir em dobro do que devemos falar.
A esses respondo que a natureza de facto é sábia, e mesmo que devemos saber ouvir para aprender e apreender, crescendo com essa escuta atenta. Mas também respondo que se estivermos atentos ao pormenor, verificamos que a natureza foi cautelosa, porque nos colocou os ouvidos de lados opostos. E que esse pormenor não foi decerto para que pudéssemos ouvir duas vezes a mesma versão dos mesmos factos, mas sim para que possamos ouvir versões diferentes, se possível contrárias, sobre os mesmos assuntos, para depois concluirmos por nós e construirmos as nossas próprias opiniões acerca desses temas.
Finalmente, uma outra regra que gosto de quebrar é aquela que defende que perante temas delicados, que devemos limitar a nossa própria exposição, tentando sempre arranjar alguém que fale por nós, para que possamos ter espaço para a contradizer, apesar de a termos previamente instruído, se as reacções ao que disse forem demasiado severas.
Não analisarei neste texto o carácter dos que assim procedem, apesar de nas entrelinhas ficar evidente o que deles penso.
Devemos ter a coragem de não colocar outros a falar por nós, e de não esconder a mão após o arremesso da pedra. Sejam quais forem as consequências devemos assumir a responsabilidade e a autoria pelas nossas opiniões ou acções. A verdade, por muito custosa que possa ser, até para nós, deve ser sempre contada.
Também aprendi, ao longo dos anos, que nos fazem inúmeras vezes autores de expressões que não usamos, nos atribuem palavras quando estivemos em silêncio, e nos incutem gestos apesar de estarmos imóveis.
Por tudo isto respondo sempre, por mais incómodo que seja: dizendo o que penso, escrevendo o que digo, assinando o que escrevo.

Rui Saraiva
Gestor

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Francisco Seguro

Uma verdade repetidas vezes confirmada ao longo da história política mundial sobretudo nos países do ocidente democrático é a de que a seguir a uma liderança político-partidária forte jamais se segue uma outra igualmente impactante. Os politólogos afirmam mesmo que após essa liderança político-partidária forte e impressiva se sucede normalmente uma outra liderança política mais débil, menos visível, apelidada ‘de transição’, que tem por objectivo ‘fazer a travessia do deserto’, para que então mais tarde possa aparecer uma outra liderança capaz de levar esse partido a novas vitórias políticas. Talvez assistamos muito em breve a uma excepção que possa confirmar essa ‘regra’.
A saída de José Sócrates de Secretário-Geral do Partido Socialista após a derrota nas últimas eleições legislativas do passado dia 5 de Junho, obriga a que seja escolhido um seu sucessor. Apresentam-se como os mais fortes para essa sucessão dois homens sérios, com extenso percurso político, quer a nível partidário, quer em termos de experiência no desempenho de funções ora governativas ora de representação parlamentar. António José Seguro e Francisco Assis são candidatos de elevado valor, reconhecidos no PS mas principalmente na sociedade portuguesa e são ambos capazes de dar ao PS a necessária energia que lhe permita reganhar a confiança em si próprio, ultrapassando as sequelas do recente desaire eleitoral.
O próximo líder do PS não irá ser, nos próximos quatro anos, primeiro-ministro. Alguns socialistas ainda não perceberam que o PS será, nos próximos tempos, apenas o maior partido da oposição e o próximo secretário-geral do PS será o líder dessa oposição. E esse papel tem uma enorme responsabilidade associada.
Para fora, o novo PS deverá ser fiscalizador, participativo, negociador e proponente de alternativas para o atingimento dos objectivos e dos compromissos que também subscreveu, mas por caminhos que sejam aqueles que percorrem a sua matriz ideológica. Para dentro, o novo PS deverá reposicionar-se à esquerda rejuvenescendo os seus dirigentes. O PS não pode fazer, como apenas alguns defendem ‘a mudança na continuidade’, para que esses se mantenham à frente dos seus destinos, e que são os mesmos que traçaram a estratégia política que saiu derrotada pelos portugueses nas últimas eleições.
Como grandes desafios do próximo líder do PS serão a sua capacidade em contribuir para a implementação efectiva da Regionalização e as Eleições Autárquicas de 2013, que deve saber preparar cuidadosamente, contribuindo também para as mudanças necessárias na reorganização administrativa do país, começando pelo mapa autárquico, com a redução e fusão de câmaras e de juntas de freguesia e com as fundamentais alterações na lei eleitoral autárquica, defendendo os executivos monocolores e o reforço do poder de fiscalização das Assembleias Municipais.
Estou convictamente Seguro que assim vai ser.

Por Rui Saraiva, publicado In Semanário Grande Porto, 1 de Julho de 2011