domingo, 6 de maio de 2012

As Pontes que deveríamos ter


Fico muito preocupado quando leio algumas das ideias de alguns dos mais distintos e destacados autarcas deste grande porto, repetidas vezes publicadas na imprensa, sobretudo porque apresentam como solução para garantir maior coesão e inter-relação entre as duas principais cidades da Área Metropolitana do Porto – o Porto e Gaia – a construção de várias travessias entre as duas margens do Douro. Apresenta-se esta política de investimento público, como o caminho que garante progresso e maior coesão económica e social.

Pasme-se até o mais desatento, que até já se afirmou que algumas dessas futuras novas pontes no Douro terão de ser pagas?! Como se todos não soubéssemos que as teríamos de pagar!

A principal causa que encontro para o afastamento entre estas duas cidades radica numa inimizade antiga entre os seus actuais presidentes de câmara. Desde o tempo em que um era o Secretário-Geral do PSD e o outro presidente da Distrital do Porto do mesmo PSD. Só a eles se deve o facto destas duas cidades estarem tantas vezes de costas voltadas.

São vários os episódios que bem retratam este afastamento. Ao longo dos últimos anos assistimos a uma verdadeira batalha de protagonismo, desde as batalhas pela maior duração e espectacularidade dos respectivos ‘fogos de artifício’ durante o São João, até ao apoio institucional à candidatura das ‘Tripas à moda do Porto’ no concurso das 7 maravilhas da gastronomia, passando pela captação por Gaia dos investimentos que o Porto tem sucessivamente rejeitado.

E parece que o aproximar das eleições autárquicas de 2013 agudizará esta situação, porque todos sabemos que um quer suceder ao outro, com a oposição do segundo que não quer ser sucedido pelo primeiro.

Assistimos a isto tudo impávidos e serenos, comentando apenas informalmente entre amigos e ninguém aparece a dizer o que deve ser dito:

São tudo menos físicas e feitas de betão as pontes que deveríamos ter entre o Porto e Gaia.

As pontes que deveriam existir entre o Porto e Gaia são aquelas que assentam numa mudança de atitudes, no encontro de consensos, na coordenação de políticas públicas, na articulação de projectos políticos, na capacidade de saber encontrar ideias, que galvanizem os cidadãos, que incentivem a iniciativa empresarial, que impulsionem as estruturas económicas e sociais já existentes, que captem investimento directo estrangeiro, que alavanquem o turismo, que propalem no mundo a imagem de qualidade de conteúdos, de história e de estórias que este Grande Porto proporciona a quem os visita.

Rui Saraiva
Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - 4 de Maio de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Turismo


Se há sector que contribui de forma significativa para a economia nacional é o turismo. Este sector encontra-se num permanente dinamismo que alavanca muitas outras actividades e sectores que dele dependem cada vez mais.

O Turismo contribui para as exportações talvez como nenhum outro, pois consegue incorporar nas suas diversas ofertas muito pouco de inputs externos (sejam matérias primas, produtos e/ou serviços importados) e portanto poderá conseguir reter a quase totalidade do valor que gera.

Saber promover o nosso país e as suas regiões é uma arte, que compete com os outros tão bons destinos e com outros actores turísticos originários de outras latitudes. A actividade de promoção é uma das actividades que merece maior atenção pois é muitas vezes fonte de despesa não reprodutiva, pois pode-se pensar que se está a canalizar bem os recursos mas desse pretenso investimento não resultar qualquer benefício ou retorno. Esta actividade de promoção turística deve basear-se num esforço permanente em agregar os vários actores, turísticos, culturais e económicos de um determinado destino, limitando a competição entre eles, maximizando a notoriedade desse destino comum.

Numa fase delicada do pinto de vista financeiro, em que actualmente Portugal se encontra, devemos todos unir esforços para contribuirmos para a melhoria contínua da imagem do nosso país, e de todos os seus destinos, deixando em quem nos visita a vontade de cá voltar ou a vontade de nos recomendar a outros, falando bem das experiências que cá puderam disfrutar.

Não podemos assim continuar a desenvolver estratégias individuais de promoção externa, desligadas de quaisquer outras iniciativas de outros agentes, operadores ou actores. Continuar por caminhos individualistas onera mais cada actor, e portanto mais o país e reduz o impacto dos resultados que se conseguiriam alcançar na opção por iniciativas de promoção conjuntas.

Prestar os nossos serviços de uma forma normal, já não é suficiente. Basear a diferenciação da oferta turística no bem receber, e na simpatia dos portugueses, não permite manter e sustentar a curva de crescimento das visitas dos estrangeiros. Basear a nossa competitividade em preços baixos, induz uma imagem de qualidade apenas razoável e portanto passageira, por não ser suficientemente marcante, distinta e única.

Temos de exceder as expectativas. Temos de melhorar a qualidade das nossas ofertas para podermos aumentar os nossos preços em consonância com os novos padrões de qualidade. Temos conteúdos, história e estórias, gastronomia, património, cultura e paisagens, às vezes só temos de as saber melhor bem ‘embrulhar’ e melhor as saber expor para melhor as conseguirmos vender.

Rui Saraiva
Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - In 3 de Abril de 2012

sábado, 10 de março de 2012

Os nossos Portos

Leixões é uma plataforma logística portuária com um elevado significado na economia do norte do país. Servindo um ‘hinterland’ que parte da Área Metropolitana do Porto e envolve toda a região norte, o norte da região centro, atingindo mesmo algumas zonas fronteiriças de Espanha, no Sul da Galiza e no Oeste de Castilla Y León, contribuindo para o aumento da competitividade dos sectores exportadores, competindo com qualidade, serviço, diligência e modernidade com os outros portos, nomeadamente os portos galegos.  

A Administração do Porto do Douro e de Leixões, através da manutenção da sua estratégia, há muito delineada, e pela continuidade das suas políticas tem conseguido apresentar resultados positivos invejáveis, com crescimentos ímpares nas quantidades de cargas movimentadas, que são despachadas e desalfandegadas através deste porto, tanto ao nível da carga geral, como ao nível da carga contentorizada, superando já os 500 mil TEU’s movimentados por ano.

A mais recente aposta de Leixões no mercado de passageiros, com o projecto, em grande parte já executado, de construção de um novo terminal de passageiros no molhe sul, permitindo a acostagem dos mais recentes navios de cruzeiro, cujas maiores dimensões, com cerca de 300 metros de comprimento, já não permitiam utilizar o antigo terminal, tem dinamizado o turismo, que cada vez mais procura esta região, num despertar aparentemente tardio, mas que em tempo está a desenvolver toda uma variada economia local. 

Sá Carneiro é uma plataforma aeroportuária cada vez mais utilizada e procurada. O investimento público aí efectuado, que lhe conferiu dignidade, dimensão, modernidade e qualidade reconhecida em vários prémios internacionais, tem produzido resultados, antecipando as previsões de tráfego, alcançando no ano passado mais de 6 milhões de passageiros.
Com estes percursos e com estes resultados então porque se pretende incluir estas infraestruturas em processos de concentração de gestão no caso dos portos, ou de privatização conjunta no caso dos aeroportos?

A escassez de recursos financeiros e as necessárias medidas de racionalização e de rentabilização, podem ser alcançadas através de múltiplos caminhos.
A independência destas duas plataformas, e a manutenção da sua “posse” são fundamentais para o país, porque são fundamentais para toda a região norte, que tem sido sempre aquela que melhor tem sabido responder à tão necessária dinamização económica nacional, com vista ao aumento das exportações.

Ora isto não inviabiliza de forma alguma a possibilidade de concessão a privados das operações que lá se encontram instaladas.

No caso de Leixões isso já acontece. Mas a sua integração numa holding portuária nacional desfocará a atenção da futura gestão para outros objectivos, levando a que a perda de autonomia resulte na perda de competitividade desta infraestrutura, com prejuízos potenciais para toda a economia regional.

No caso da privatização da ANA como um todo, sem a opção pela autonomização de cada aeroporto, sem a opção pela privatização ou sem a concessão da gestão aeroportuária de forma individualizada, Sá Carneiro será sempre considerado pela futura nova gestão numa lógica integrada, e não, como até aqui, numa lógica própria, com uma abordagem específica do seu próprio mercado, competindo com os demais aeroportos nacionais e da Galiza, na tentativa constante de ganhar dimensão, escala, qualidade, servindo cada vez melhor os seus clientes, sejam eles passageiros, sejam eles as empresas de transporte aéreo de mercadorias que também cada vez mais utilizam este aeroporto do norte.

Neste caso, como em muitos outros, a soma das partes pode, à primeira vista, valer menos que a venda, alienação ou concessão após a sua integração total, permitindo assim um maior ganho financeiro imediato e de curto prazo.

Mas os efeitos económicos negativos que esta decisão terá, para a toda a região norte a médio prazo, serão superiores aos ganhos que se pretendem agora rapidamente obter.

Manda a prudência, que nas decisões não se opte pelo caminho mais fácil, mas sim por aquele que fundamentadamente represente a melhor opção, não só no curto, mas sobretudo no médio e no longo prazo.

Rui Saraiva

Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - em 9 de Março de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Natalidade

Se existe um sério problema que Portugal terá de enfrentar com coragem é o problema da muito baixa taxa de natalidade. Somos já o país da Europa que regista o valor mais baixo no que respeita à taxa de natalidade, ao registar uma média de 1,36 nascimentos por cada mulher em idade fértil. A renovação de gerações, só possível quando este indicador se situa acima dos 2,1 filhos por casal, está cada vez mais a ser posta em causa.

Este é um claro exemplo da ausência de políticas públicas coerentes e de longo prazo que impeçam a continuação de uma tendência fortemente negativa que se conhece há já muitas gerações.

Este problema agudiza-se com a actual conjuntura de austeridade e com a profunda crise económica em que vivemos, e que tem obrigado ao crescimento da emigração, principalmente composta pelas novas gerações qualificadas que decerto muito dificilmente quererão no futuro constituir a sua família no nosso país.

Todos temos consciência que a adopção de quaisquer políticas públicas com vista à aplicação de formas diversas com vista à resolução deste problema passam ora por um aumento de despesa ora por uma redução da receita fiscal do Estado.

Os incentivos que poderão existir para que os jovens casais optem por ter filhos, mais cedo e em maior número radicam numa reorientação da política fiscal, com a aplicação de escalões de isenções ou reduções fiscais, que minimizem de forma progressiva e substancial as taxas e os impostos aplicados às famílias, conforme sejam elas compostas por maior número de dependentes. 

Devem ser também aplicadas medidas de apoio às famílias numerosas, também progressivas conforme cresça o seu número de membros, medidas essas que podem passar por apoios mais de ordem logística, através das redes de creches e redes de escolas públicas de proximidade, com horários de funcionamento alargado, que permitam conciliar a vida profissional com a vida familiar, ou ainda com a assumpção de uma atitude de tolerância quanto ao cumprimento das tarefas estabelecidas ao abrigo das relações de trabalho, nomeadamente nos momentos de gravidez ou nos períodos de amamentação, sempre possíveis através de modelos vários de organização do trabalho.  

Só com a aplicação conjugada e simultânea de várias medidas e de diversas políticas públicas é que se conseguirá estancar a quebra da taxa de natalidade e iniciar a inversão da tendência.

Mas é necessário também quebrar tabus, como sejam olhar, de uma forma também ela séria, para as políticas de imigração. É mais uma das múltiplas formas de aumentar a natalidade e de rejuvenescer a população, com a adopção de uma maior abertura na aceitação de imigrantes provenientes de países lusófonos, sem excepção. Eles procuram as oportunidades de trabalho e o acesso a um nível de desenvolvimento que Portugal lhes pode proporcionar, e que ainda rivaliza com o nível de desenvolvimento dos seus países de origem. 

Rui Saraiva
Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - 24 de Fevereiro de 2011

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Liderança a Norte

Marcelo Rebelo de Sousa colocou um ponto final na conclusão que todos conheciam e já interiorizavam, mas poucos já ousavam afirmar. Rui Rio não soube liderar o PORTO e muito menos liderar o NORTE, não tendo sido capaz, nos seus mais de 10 anos de presidência, de ir além da simples boa gestão do seu município, mas tão só e apenas dentro das fronteiras da própria urbe.


De facto a Região NORTE perdeu fôlego, perdeu influência e sobretudo perdeu capacidade própria de afirmação. Resignou-se.

Esta situação a que hoje chegamos não decorre apenas da fraca capacidade intrínseca de liderança e de projecção de toda esta região. Foi sobretudo causada por uma fraca capacidade de combate contra as decisões centralistas dos sucessivos governos nacionais.

Este problema não se resume em apelidar o PSD de ser centralista ou de classificar PS de regionalista. Aliás, existem inúmeros exemplos concretos em que o que ocorreu foi exactamente o inverso. Foram governos do PSD que localizaram no PORTO sedes de organismos fundamentais, como a ‘Bolsa de Derivados do Porto’ ou a sede da ‘AIP’ (hoje AICEP), e que foram governos do PS que decidiram relocalizar as sedes desses organismos novamente em LISBOA, ou de apoiar a criação de concorrência de ‘Serralves’ em LISBOA, como foi o caso do ‘Museu Berardo’.

Agora, sob o pretexto da austeridade, pretende-se reduzir os custos do funcionamento do Estado concentrando-se ainda mais em LISBOA os serviços e as decisões. Há sempre uma boa nova justificação para a continuidade das políticas erradas. Numa época de profunda crise, quando há menos dinheiro e menos poder, assiste-se sempre à tentativa de querer ficar com o pouco dinheiro e consequentemente com o poder ainda existente, concentrando apenas em volta do governo os últimos parcos recursos, diminuindo drasticamente a sua distribuição e afectação territorial.

Rui Rio pagou as contas da cidade a tempo e horas, mas o PORTO perdeu o Mundo.

Já é tempo de o PORTO e de o NORTE ganharem novamente o seu amor próprio, escolhendo novas lideranças políticas, mais jovens, menos comprometidas, mais arrojadas, corajosas, que não se disponham a agir sempre dentro dos limites do que é considerado politicamente correcto. 

Para bem do PORTO e fundamentalmente para bem das gentes do NORTE.

Rui Saraiva

Gestor

Publicado In Semanário Grande Porto - 10 de Fevereiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Grande Segredo

Há muitas formas de definir o que é a gestão. Existem conceitos mais técnicos e significados que se baseiam numa abordagem mais científica deste ramo das ciências sociais.

Pessoalmente prefiro uma versão mais simples de como entendo a gestão: o estabelecimento de um objectivo complementado com a definição de um caminho para o atingir. Esse objectivo pode ser individualmente definido, ou pode sê-lo por um grupo de pessoas que o fazem institucionalmente organizadas ou não.

A arte de bem gerir passará então a ser a capacidade de agregar os recursos necessários à prossecução desse caminho sempre no sentido de se atingir o objectivo. Deve o gestor ser capaz de reunir as pessoas, com os conhecimentos, com a experiência e com as competências necessárias, deve ser capaz de reunir o capital financeiro, num calculado equilíbrio entre os capitais próprios e os capitais alheios, e deve ser capaz de reunir os meios materiais, os equipamentos e os recursos tecnológicos fundamentais, para que se possa iniciar o percurso, com vista ao alcance do seu alvo.

Ora, é fundamental monitorizar o percurso, no sentido de se avaliarem os desvios, calculando-os, para os conseguir interpretar e finalmente corrigir. Deve sempre haver a humildade de se saber que muitas vezes o que é necessário corrigir é o objectivo, porque a verificação da correcção do percurso efectuado pode levar a concluir que esse objectivo fora, inicialmente, mal definido. Mas na maior parte das vezes existe é a necessidade de se redefinir o caminho, mantendo o objectivo inicial, alterando se necessário a alocação efectuada dos vários tipos de recursos.  

De todos os recursos reunidos o mais importante são as pessoas, os recursos humanos, a quem deve ser dado correctamente a conhecer quais os caminhos que se espera que percorram e quais os objectivos que se pretende que sejam por eles atingidos.

Torna-se assim essencial na gestão a capacidade de liderança das pessoas e o seu acompanhamento próximo, assim como a capacidade de motivação das equipas, no reconhecimento dos melhores, e por fim a forma como se premeia o mérito e por oposição a capacidade de penalização daqueles que não contribuem para o sucesso do conjunto.

A política de retribuição que se define nas organizações deve adequar-se ao ciclo de vida da empresa, deve ajustar-se ao sector de actividade onde se insere a instituição, mas sobretudo deve resultar do equilíbrio entre o grau de exigência da função em causa e o contributo dessa função para o resultado global da empresa. A retribuição não deve ser administrativamente definida, nem deve ficar imune a variações no tempo., e finalmente deve conter componentes variáveis que possam ser utilizadas quer no premeio que se quiser fazer do desempenho de cada um, sempre indexados aos resultados, quer nos mecanismos de motivação que se quiserem implementar.   

As apostas no aumento da competitividade de uma qualquer empresa num qualquer mercado não devem passar pela vantagem dos baixos custo dos factores de produção, baseados em salários baixos, que normalmente correspondem a uma menor qualificação dos trabalhadores e quase sempre correspondem a produtos ou serviços de baixo valor acrescentado. Este tipo competitividade é sempre efémero, e no curto prazo, pois compete-se com quem opera em mercados desregulamentados, por inexistência de qualquer tipo de legislação laboral e ambiental, ou mesmo porque se compete com quem consegue concorrer de forma desleal, através de práticas de fuga fiscal ou aduaneira. A procura da melhoria de competitividade deve ser sempre na aposta em mercados de elevado valor acrescentado e de elevada qualidade exigida, através de produtos e serviços muito diferenciados.   

A diferença entre o salário mais baixo e o salário mais elevado em qualquer organização deve ser muito equilibrada, e devidamente justificada, pois vai corresponder para fora aos valores que a organização pretende defender, e para dentro servir de referência à percepção que os seus colaboradores têm da instituição de que fazem parte.

O investimento que as empresas fazem na melhoria da qualificação dos seus trabalhadores, e o investimento efectuado na qualidade do seu bem-estar tem correspondência directa na produtividade alcançada, e tem também uma correlação directa na retenção dos seus melhores colaboradores.

Na gestão das organizações e das instituições, a capacidade de bem liderar as pessoas é o seu ‘grande segredo’.

Rui Saraiva
Gestor


Publicado In Semanário Grande Porto - 27 de Janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Não estou de Acordo !

Inicio este ano de 2012 por querer afirmar tudo aquilo em que estou em total desacordo. Esta minha manifestação pública de discordância com muitas situações e com muitos factos é também uma forma de mostrar qual o caminho que eu pessoalmente defendo dever ser trilhado.

Começo por manifestar o meu desacordo com o facto de Portugal parecer estar, querer estar, ou mesmo estar numa posição vendedora de algumas ou de todas as suas redes de infra-estruturas fundamentais, sejam elas a REN (rede de distribuição de energia eléctrica), a ADP (rede de distribuição de água), a EP (rede nacional de estradas, itinerários e auto-estradas), a ANA (plataformas aeroportuárias), ou mesmo a REFER (rede de infra-estruturas ferroviárias). Por outro lado sou favorável à alienação parcial ou total dos operadores nestes mercados, ou à concessão das suas actividades, desde que devidamente reguladas por reguladores isentos, independentes, equidistantes, capazes, e dotados dos recursos indispensáveis para realizar a fiscalização das actividades dos diversos operadores em cada mercado.

Contesto também a forma como se não cumpre a nossa lei fundamental que é a Constituição da República Portuguesa, na falta de equidade na repartição dos sacrifícios que deviam ser exigidos a todos os portugueses, mas que o são apenas a uma parte da população. Sem aprofundar este tema só quero acrescentar que não concordo que o principal defensor desta lei fundamental, que prestou juramento público na sua defesa, se alheie deste assunto.

Não concordo que se continue a chamar taxas moderadoras aos reais preços praticados na utilização que os portugueses fazem do Serviço Nacional de Saúde. Estamos cada vez mais perante uma efectiva tabela de preços de serviços médicos, que representa nova forma de financiamento do SNS e não estamos já apenas a procurar moderar o acesso.

Não estou de acordo que a pretexto da austeridade se acentue a centralização de responsabilidades, de decisões e de serviços na região de Lisboa, tratando de forma desigual o país, comprometendo a sustentabilidade futura de todo o restante território nacional.

Estou contra a não limitação dos juros a pagar à banca. Não concordo que não se decida aplicar uma taxa a todas as transacções financeiras intra-união europeia e inter-regiões Europa/América/Ásia. Não concordo que o BCE não possa comprar dívida dos países em maiores dificuldades directamente nos mercados primários. Não concordo que o BCE não possa emitir Obrigações Europeias com rating resultante da avaliação do risco ponderado de toda a zona euro.

Discordo que se brinquem com variáveis de mercado, como o facto de se estarem a determinar em simultâneo subidas de preços de diversos serviços do Estado e reduções desses mesmos serviços, achando que a procura se comportará de forma inelástica.

Finalmente, não concordo com o novo acordo ortográfico e, como tal manter-me-ei, até ao prazo legal limite, a escrever os meus textos pessoais e artigos de opinião de acordo com a antiga ortografia, fazendo a alteração só e quando assim fôr de facto obrigado.  

Rui Saraiva
Gestor


Publicado In Semanário Grande Porto - Sexta-feira 13 de Janeiro de 2012