Este Blog tem por objectivo ser um novo referencial de reflexão para o Porto, para o Norte e para Portugal. Neste espaço reunem-se e agrupam-se, para já, todos os textos publicados na imprensa da autoria de Rui Saraiva.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Orçamento Cautelar
A proposta do Governo para o
Orçamento de Estado para 2014 é um grande acto cénico que encerra vários
objetivos em si mesmo.
Mais do que um gesto teatral que
visa sobretudo tentar manter uma imagem de credibilidade para quem nos observa
de fora, é um duro golpe para todos os portugueses.É uma derrota para o Governo em primeiro lugar. É uma derrota de Portugal em segundo lugar. É por último uma derrota para todos os portugueses.
Depois de todos os sacrifícios que nos têm sido infligidos, depois de toda a enorme austeridade que tem sido imposta à nossa economia, depois de todos os flagelos sociais de que muitas franjas da nossa população têm sido alvo, os objetivos propostos não têm sido atingidos.
O Governo falhou sucessivamente os
resultados que nos foram apresentados como fundamentais para justificar as
medidas que nos foram impostas. As receitas não deram frutos, não estão a curar
o país da sua principal doença. Apesar do insucesso, há a persistência nos
caminhos adotados.
Os métodos adotados para a nossa
cura estão a matar o país, empobrecendo a população e enfraquecendo a economia,
destruindo a confiança no futuro, desarticulando o Estado, que se encontra em
situação de quase pré-falência, fechando aos poucos os seus serviços e
reduzindo paulatinamente o seu papel.
O Governo comporta-se como um
administrador de insolvência, assumindo cada vez mais incapacidade de se
mostrar capaz de nos salvar.
Prometeram-nos que iriamos voltar
aos mercados (em Setembro passado). Não foi verdade. Prometeram que o país iria
voltar a ter crédito dos financiadores que assim voltariam a investir em
Portugal. Mas os juros subiram na razão direta da nossa falta de credibilidade.
E assim, também aqui falharam.
Ora, como a promessa não se
concretizou e, em 2014, teremos forçosamente de ter condições para voltar a
obter financiamento externo, mas com os mercados fechados na sua vontade de nos
voltarem a emprestar dinheiro em voluptuosos montantes, era necessário um passe
de mágico.
Construiu-se então este Orçamento
Cautelar, com vista a evitar o cenário mais que provável de um 2º resgate,
tentando obter as condições para que as entidades europeias e financeiras
mundiais, as mesmíssimas que nos resgataram em 2011, voltem a estar connosco,
salvando-nos (mas de outra forma e com outro nome).
Mas a forma encontrada é infeliz.
Assenta na construção de um
documento de ilusão porque se propõe atingir metas cujas medidas propostas para
atingir esses objetivos ou não são suficientes, ou não são baseados em cenários
com grandes probabilidades de concretização.
Assenta num documento que contempla
várias normas que contrariam uma vez mais os nossos princípios constitucionais,
e portanto é ele próprio o primeiro arremesso de um futuro novo confronto com o
Tribunal Constitucional.
Assenta num documento do qual muito
provavelmente poderá resultar uma crise política, de cujas responsabilidades o
Governo poderá tentar escapar, mas de cujas consequências todos teremos de
suportar.
Rui SaraivaGestor
Publicado In Semanário Grande Porto - In 25 de Outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Avalanche Autárquica
Os
resultados eleitorais das autárquicas realizadas no passado Domingo não podem
deixar nenhum partido satisfeito, com excepção da CDU.
Em termos
nacionais, o Governo e a coligação partidária que o sustenta tiveram um claro
cartão amarelo, com uma derrota histórica caracterizada pela perda de Câmaras
Municipais e de Juntas de Freguesia, com uma enorme perda de eleitorado.
O Partido
Socialista foi de facto o grande vencedor, porque soube melhor resistir à
hecatombe, e não deixou de sofrer também uma significativa perda de votos.
Tendo o PS conquistado muitas Câmaras ao PSD, como Vila Real ou Sintra, também
perdeu Câmaras emblemáticas como Braga, Guarda ou Loures, perdendo algumas
delas para a CDU.
Deve
merecer atenção cuidada os votos em branco e os votos nulos, e deve ser
profundamente analisado o nível da abstenção, que foi superior a 47% do total
dos cidadãos eleitores.
No Distrito
do Porto, o PS perdeu Amarante, Matosinhos e Trofa, concelhos de forte apoio
militante à liderança distrital, compensado parcialmente com as grandes
vitórias em Valongo, Gondomar e Gaia.
Mas é no
Porto que as fragilidades do PS melhor se percebem.
O Porto é
inquestionavelmente o concelho mais importante em termos nacionais e em termos autárquicos.
E, no
Porto, o PS sofreu uma pesadíssima derrota. Essa derrota é enorme.
Não apenas
porque o PS PORTO não conseguiu reconquistar a Câmara Municipal após 12 anos de
afastamento, não tendo sabido aproveitar o fim de ciclo da presidência de Rui
Rio que já não se podia mais recandidatar, não tendo sabido aproveitar uma
direita profundamente dividida, e não tendo sabido aproveitar um enorme
descontentamento com as políticas do Governo PSD/CDS-PP.
A
enormidade da derrota do PS PORTO é-o sobretudo porque representa o pior
resultado autárquico de sempre, desde o 25 de Abril de 1974, apesar do PS PORTO
estar há mais de 3 anos todo unido em volta do Presidente da sua Concelhia e
candidato à Câmara do Porto.
O Candidato
do PS, Manuel Pizarro, é um bom Homem, conheço-o relativamente bem… mas isso
não chega…
Uma
liderança pouco impressiva, pouco capaz. Uma candidatura muito fechada, e pouco
inclusiva, embora aparentemente dita como aberta e ouvinte dos cidadãos. (Alguns
dos que acompanhavam Manuel Pizarro e o rodeavam afastaram todos os que se lhe
aproximavam, numa tentativa de serem apenas eles os que dirigiam e influíam na
campanha e na candidatura). Uma lista muito pouco conhecida. Propostas muito
pouco convincentes ou totalmente inadequadas e opacas (…como aquela dos painéis
solares para os bairros sociais com custos de 25 milhões de euros…).
Uma
estratégia política errada, com sucessivos ataques a Menezes, concentrando
todos os esforços em atacar o rival vindo de Gaia, papel esse que nunca deveria
ser o de Manuel Pizarro. Diz-se até que fez o frete a Rui Rio e aos apoiantes
do agora novo Presidente da Câmara Municipal do Porto, o Dr Rui Moreira.
Esta
derrota deve ter consequências políticas imediatas, pois Manuel Pizarro que
politicamente foi encostado às cordas, deve retirar-se já da liderança política
do PS PORTO e pedir a sua demissão~, assumindo pessoalmente a derrota, tirando
consequências do que aconteceu e não reagindo como se tivesse ganho as
eleições, que foi a leitura que todos fizeram do seu discurso na noite
eleitoral.
Estará o PS PORTO uma vez mais afastado da Câmara Municipal
do Porto, por mais 12 anos ?
Rui Saraiva
GestorPublicado In Semanário Grande Porto - In 4 de Outubro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
Síria Sob Ataque
Hoje ninguém se lembra
quem começou os primeiros ataques entre os cidadãos sírios. Hoje ninguém
consegue distinguir correctamente quem agiu belicosamente e quem reagiu também
de forma tempestiva às primeiras refregas. Já não é mais importante saber quem
deu o primeiro tiro, se foi o Governo ou as suas forças armadas, ou se foram os
membros da oposição e as milícias rebeldes que a apoia.
O que hoje importa é
que esta escalada de violência tem sido mostrada ao mundo através de imagens de
enorme horror. As imagens mostram um gigantesco sofrimento dos dois lados dos
contendores.
Como é que um povo se
pode dividir desta forma?
As várias religiões presentes
nesta região e as diferentes etnias não podem ser a explicação. Não podemos
aceitar, ninguém pode aceitar uma qualquer justificação para os actos de
verdadeiro terror cometidos na Síria, contra populações inocentes, que tendo opinião
e apoiando um dos lados não se encontram em confronto.
O corolário deste
cenário dantesco ocorreu no final do passado mês de Agosto quando nos chegaram
ao conhecimento relatos e imagens de centenas e mesmo milhares de pessoas que
tinham morrido ou ficado seriamente afectadas após ataques aparentemente
perpetrados com armas químicas.
Foi o necessário para a
comunidade internacional acordar para estes massacres. Com os Estados Unidos a
encabeçarem os protestos, quer no seio das Nações Unidas quer na Cimeira do
G20, acompanhados por uma França arrojada e por uma tímida Inglaterra.
Estavam já a ser
preparados os pormenores finais de um ataque militar americano a objectivos
estratégicos na Síria, com vista à eliminação dos alvos militares que pudessem
representar novas futuras ameaças de novos ataques com armas químicas.
A Rússia, que apoia
estrategicamente o Governo Sírio, por representar uma zona tampão dos
interesses ocidentais e americanos, veio interpor-se a esta vontade, fechando o
Conselho de Segurança na Nações Unidas à vontade de uma posição da Comunidade
Internacional que pudesse apoiar uma intervenção militar em grande escala com
invasão territorial.
Os princípios que devem
ser defendidos são claros, as armas químicas nunca deverão ser utilizadas
contra populações indefesas, e não devem nem podem ser utilizadas para
aniquilar oposições políticas a regimes políticos, sejam eles legítimos ou
ditatoriais.
Os Estados Unidos,
ainda apoiados por muitos países mantêm a ameaça de guerra à Síria sem ‘botas
no chão’, mas abrem a porta à possibilidade de não atacarem se for concretizada
a hipótese de controlo pela Comunidade Internacional do arsenal de armas
químicas sírio, com a sua posterior destruição, anulando assim a ameaça de novas
utilizações.
Nenhum outro interesse
estratégico, económico, militar, energético se pode sobrepor à defesa
intransigente da dignidade do ser humano e do respeito pela vida humana.
A Comunidade
internacional tem de agir rapidamente e com toda a veemência para fazer da
Síria um exemplo para todo o Mundo, em primeiro lugar para que não ocorram
noutras geografias outros cenários de verdadeiro inferno e desprezo pela vida
humana, mas principalmente para defender a própria Síria e o seu Povo da sua
auto-destruição.
Rui
Saraiva
GestorPublicado In Semanário Grande Porto - In 13 de Setembro de 2013
Limitação de Mandatos
Estamos a pouco mais de
um mês das próximas eleições autárquicas em Portugal, que se realizarão em 29
de Setembro próximo, e assistimos diariamente a notícias e informações,
comentários e reacções às primeiras decisões dos tribunais relativamente à
impossibilidade ou inelegibilidade de muitos candidatos à Presidência de
Câmaras Municipais e à Presidência de Juntas de Freguesia ou dos novos
Agrupamentos de Freguesias.
As opiniões e as
reacções que ouvimos da parte de todos os interlocutores ligados aos aparelhos
partidários são apenas jogadas políticas de quem apenas se preocupa com o
desempenho do seu papel político, tentando agradar melhor do que os demais ao
seu eleitorado interno e externo.
Este problema era há já
muito tempo conhecido, e tardou ser clarificado, Podia ter sido esclarecido,
com a correcção da legislação por aqueles partidos que hoje se degladiam por
melhor atirar as culpas desta situação de indefinição aos outros.
Este problema aliás faz
esquecer outras questões mais importantes.
A legislação devia
ter-se debruçado pela definição de órgãos executivos monocolores, que emanassem
das Assembleias Municipais com poderes de fiscalização reforçados. O executivo
seria assim constituído pelo partido mais votado, com apoio numa Assembleia
Municipal que tivesse o poder de aprovar os diplomas locais mais fundamentais,
funcionando como um espelho do sistema nacional, equilibrando o poder executivo
com o poder legislativo.
Não se resolveram
também os assuntos relativos às atribuições, competências, funções, poderes e
formas de financiamento de cada patamar da nossa estrutura
político-administrativa, desde as Juntas de Freguesia, às Câmaras Municipais,
passando às Áreas Metropolitanas e terminando nos Governos Regionais.
Que existe carreirismo
político, não se pode negar. Existem muitos que se julgam senhores do nosso
Estado, e que utilizam os seus lugares para se manterem e alimentarem a sua insaciável
fome de poder, e alimentarem os seus séquitos apáticos e sem opinião própria,
que apenas aspiram a um pequeno pedaço do poder delegado pelo seu ‘senhor’.
Quem não tem lugar sem
ser na política, ou quem não tem trabalho reconhecido fora da esfera política
não poderá nunca desempenhar bem uma qualquer função pública.
A minha posição é muito
clara: deve ser limitado o número máximo de vezes consecutivas que se podem
repetir os mandatos, sendo que se deve defender que estas limitações sejam
aplicadas a todos os membros de executivos de órgãos políticos, sejam estes nas
autarquias locais, governos regionais e mesmo no governo nacional.
Também sou de opinião
que essa limitação seja de um máximo de três mandatos consecutivos. Essa
limitação deve abranger todos os membros de executivos, independentemente do
lugar que ocupam, não podendo apenas aplicar-se a quem encabeça a lista.
Mas também sou de
opinião que essa limitação se deve aplicar, no caso das autarquias ou dos
governos regionais, apenas ao território onde se desempenham as funções
executivas. Portanto admito que quem atinja o limite de mandatos consecutivos numa
autarquia ou região se possa candidatar a outra, mesmo que vizinha e
concomitante.
Quem deve decidir quem
pretende que dirija os seus órgãos políticos locais são as populações, os
cidadãos eleitores desse território.
É aos cidadãos
eleitores que deve ser dado o poder de rejeitar e derrotar todos aqueles que
fazem da política o seu único palco de vida, e fazem dos órgãos políticos e
públicos uma carreira política e uma forma de se perpetuarem.
Rui
Saraiva
GestorPublicado In - Semanário Grande Porto - In 23 de Agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Investimento e Confiança
O crescimento económico
de qualquer país depende da sua capacidade de captação de novos investimentos,
e seja qual for a geografia onde esse país estiver localizado, existem vários
factores que são decisivos para qualquer empreendedor tomar a decisão de
investir ou de reforçar investimentos, seja ele nacional ou estrangeiro.
Em primeiro lugar,
depende muito da dimensão do seu mercado interno, conjugado com o poder de
compra dos seus agentes económicos, individualmente considerados, ou agrupados
nas famílias, empresas, governos centrais, ou entidades públicas regionais e
locais.
Em segundo lugar,
depende das pessoas que o compõem, das características da sua sociedade, seja
das competências dos seus recursos, seja do seu grau de instrução e do tipo de
qualificações predominante, depende dos conhecimentos formais provenientes da
rede oficial de ensino ou dos conhecimentos informais que advêm da sabedoria
adquirida através dos mais velhos, depende da sua formação profissional, e
depende da sua pirâmide etária e do consequente melhor equilíbrio entre a energia
e ambição da parte jovem da população balanceada com a maturidade dos mais
experientes e idosos. Nesta dimensão concentra-se a fundamental interligação do
ensino com as empresas, a existência de Universidades de excelência, que
investem na I&D, geradoras de empreendedorismo, inovação e conhecimento.
Em terceiro lugar,
depende do modelo de organização da sua sociedade, e da forma como está
estruturada a sua Administração Pública e de como estão interligados os vários
serviços públicos. Essa organização administrativa, a forma como é conhecida e
respeitada, e a forma como esta age, se é eficiente nos seus processos e eficaz
nos resultados que alcança são indicadores fundamentais para quem quer investir.
Em quarto lugar,
depende da eficácia do sistema de justiça, que faça prevalecer a justiça das
decisões, que só o são se forem tomadas em tempo útil. Aqui o conceito de
utilidade é o conceito económico do termo. Uma economia fica mais saudável se
estiver aliada a uma Justiça eficaz e célere que protege os interesses dos
agentes económicos, dirimindo rapidamente os potenciais conflitos entre
concorrentes ou entre fornecedores e clientes. Neste ponto não é só a justiça
que tem impacto mas todo o sistema de regulação económica. A existência de um
forte edifício de Entidades Reguladoras em mercados e em sectores chave,
entidades públicas, com capacidade, meios e poder de intervenção, livres e
independentes fortalece toda a economia, porque contribui para o acicatar da
concorrência leal entre agentes económicos.
Em quinto lugar,
depende da estabilidade do seu sistema político, mas mais do que da
estabilidade política do seu governo ou a perpetuação dos governos, a economia
depende mais da estabilidade das políticas, e da forma como cada governo não
altera de forma radical os percursos iniciados pelos governos antecessores.
Aqui concentra-se a necessidade da estabilidade do seu sistema fiscal e a
necessidade de agilidade na tomada de decisões. Os agentes económicos não
gostam nem desgostam de eleições, mas sim reagem aos possíveis efeitos negativos
que estas possam ter, como sejam os atrasos de decisões administrativas, as totais
disrupções de caminhos percorridos, ou a inversão completa de objectivos
públicos.
Em sexto lugar, depende
do seu grau de abertura ao exterior. Uma economia aberta que interage com
outras economias, mais vizinhas ou mais distantes, é mais capaz de diversificar
riscos, exportando os seus produtos, e importando bens e matérias-primas,
competindo a uma escala global, obrigando-se a melhorar as suas competências,
capacidades, inovando nos seus processos e produtos.
Mas em todos estes
exemplos atrás enumerados há um fator que os perpassa e que prevalece que é o
factor da confiança. Não é apenas a confiança que um qualquer governo tem da
parte de uma Assembleia da República que o sustenta. Não é apenas a confiança que
as pessoas têm umas nas outras. Não é apenas a confiança que as pessoas têm nas
instituições que organizam e sustentam uma sociedade. Não é apenas na confiança
que cada qual tem em si próprio e nas suas capacidades, conhecimentos e
competências.
É sobretudo a confiança
no seu futuro, chame-se-lhe fé, chama-se-lhe esperança.
Esta confiança de que
falo, consegue-se apenas no colectivo, e no conjunto da sociedade, mas depende
sobretudo dos timoneiros que a lideram, e emana da sua visão global e de longo
prazo. Esta confiança demora muito tempo a ser uma atitude de um povo, e
constrói-se ao longo de muitos anos. Esta confiança quando existe sente-se, não
se diz, não se verbaliza.
É dessa confiança que
Portugal precisa.
Rui
Saraiva
GestorPublicado In Semanário Grande Porto - In 2 de Agosto de 2013
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Salvação Nacional
O nosso Presidente da
Republica surpreendeu tudo e todos.
O PSD e o CDS-PP julgavam
que estavam sozinhos a jogar no tabuleiro político nacional. O PS estava a
tentar entrar no jogo, à espera que algum dos dois perdesse uma das principais partidas.
O árbitro redefiniu as
regras do jogo, e tornou-se no mais importante elemento do tabuleiro.
Perante duas hipóteses
possíveis, entre a dissolução da Assembleia da República e consequente
convocação de eleições antecipadas, solução essa reclamada por toda a oposição
parlamentar, e entre a aceitação da proposta de constituição de um novo governo
emanado de um forçado acordo entre o PSD e o CDS-PP o Presidente não escolheu
nenhuma destas soluções.
Cavaco Silva escolheu o
seu próprio caminho e aposta na sua própria solução.
Penso que todos os
portugueses concordam com o caminho proposto por este nosso Presidente.
Temos verdadeiramente o
nosso Presidente da República a agir na assumpção plena dos seus poderes
presidenciais e da sua muito importante responsabilidade.
O Presidente quer que
os três partidos do arco da governação e que assinaram o Memorando de
Entendimento (MoU), PS, PSD e CDS-PP se entendam subscrevendo um acordo
político de médio e longo prazo, que os comprometa e sobretudo comprometa o
nosso país com soluções políticas de longa duração, notoriamente credíveis, socialmente
sustentáveis, financeiramente equilibradas, e economicamente progressistas.
Caso os três partidos
não queiram seguir este caminho, e se recusem avançar para esta solução,
defendendo apenas as suas posições individuais, optando por interesses
particulares e partidários, de curto prazo, em detrimento do interesse
nacional, o nosso Presidente não vacilará, e não deixará de os responsabilizar
pelo sucedido.
Quer o PS, quer o PSD quer o
CDS-PP não podem deixar de responder positivamente a este apelo, e a esta
chamada de Cavaco Silva, e não podem deixar de pensar no bem comum, e nos
interesses dos portugueses. Mesmo que para tal os alguns líderes destes três
partidos tenham de abdicar de posições políticas anteriormente irrevogáveis, ou
mesmo que outros tenham de sair de cena.
É o momento do tudo ou
nada.
É o momento da
responsabilidade, tudo o que for dito, afirmado publicamente ou em surdina,
todos os gestos, todas as posições políticas assumidas ou percebidas, terão
consequências no futuro, para os próprios e para todos os outros.
Ninguém nestes três
partidos se pode furtar a este momento. Os olhos de todos estão colocados sobre
todos os políticos, sobre os que estão no poder e sobre aqueles que querem
chegar ao poder. A credibilidade deve ser a base das propostas políticas, a
alternativa far-se-á na contribuição que cada um fizer para o acordo de
salvação nacional.
É uma decisão política
de muito elevado risco. Ao propor esta solução Cavaco Silva está a jogar toda a
sua longuíssima carreira política num provável último gesto mas também
provavelmente a mais importante decisão política da sua vida.
Tem de ser possível
alcançar esta Solução Presidencial.
Rui
Saraiva
GestorPublicado In Semanário Grande Porto - In 12 de Julho de 2013
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